Outubro, 12, 2024.
Caro amigo,
Mais uma vez venho aqui lhe saudar, espero que esta carta o encontre com saúde e bom humor. Digo bom humor, por que em minha memoria é mais taciturno e circunspecto do que eu gostaria que fosse. Permita-se meu caro amigo a observar a vida com outras lentas além destas suas analíticas. Se quiseres posso emprestar as minhas para ti...
Não franza a sua testa ou ficará assim eternamente, não preciso estar ao seu lado para saber que o esta fazendo agora, talvez tenha até feito um muxoxo com seus lábios ou até mesmo deixado escapar um esgar de desgosto por minha oferta, que em sua visão é descabida e desnecessária.
Pois bem, não vim aqui para mais uma de nossas longas e interessantes discussões, vamos mais uma vez deixar de lado o fato de que amamos discordar. Lhe prometi contar o sonho em que me vi como sereia...então se eu fechar os olhos posso sentir a água envolvendo meu corpo enquanto flutuo e corto as moléculas de aguas agrupadas e salgadas que chamamos de oceano. Tens ideia de quão mágico foi?
Subir e descer, nadar entre peixes e corais, ver as águas vivas e tocar nas algas que crescem livremente sem que os horríveis humanos as tenham suprimido e contaminado com seus desvarios consumistas, onde no fim tudo é descartado e tristemente parte desses itens agora denominados de lixo, são encontrados em nossos córregos, rios, mares e oceanos.
Não vamos aqui falar sobre o aquecimento global e o derretimento das geleiras, pois isto sim tira o que há de pior em mim. Voltando ao meu sonho, eu era este ser livre e lindo, desbravando o oceano e conhecendo seus mistérios, pequenas ostras se abriam me mostrando seus tesouros, pérolas reluzentes e que refletiam minha nova imagem.
Sem falsa modéstia sei que aos olhos de muitos tenho uma beleza considerada padrão ou inexistente, mas ali naquele momento me senti o ser mais lindo deste mundo, queria ficar me admirando, admirando as maravilhas daquele então meu novo mundo.
A cauda vermelha e resplandecente que estava acoplada em meu corpo, se movia de maneira fluida e natural, senti como se eu fosse uma sereia a minha vida toda. Mas como em todos os contos de fadas tem um vilão, em meu sonho não foi diferente. Mas este vilão em especifico querido amigo, é o mais perverso de todos, este vilão se chama despertador.
Que veio de modo brusco e me arrancou deste meu sonho lindo, deixei de flutuar e tocar os seres marinhos para olhar minha cara amarrada e emburrada de sono no pequeno espelho de meu quarto. Pergunto-me se me deitar novamente seria possível continuar este ou aquele sonho? Será que nossos perspicazes cientistas já pensaram em uma solução para tal problema?
Digo que eu seria uma das primeiras a me oferecer de forma efusiva, para participar de tal teste ou estudo, imagine ter um poder assim, determinar o que sonhar e quando sonhar poderia ser de fato maravilhoso, mas... agora aqui analisando, penso que seria perigoso demais, pois existiria a grande chance de eu não querer voltar a realidade.
Você caro e enfadado amigo, sentiria a minha falta? Sentiria falta de minhas cartas cheias de sonhos e fantasias?
Aguardo ansiosamente a sua replica.
Com carinho, sempre sua.
M.S.